11 de out de 2012

Um dose extra de açúcar

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Ela olhou o relógio na parede, eram 7:15 da manhã. Hoje poderia chegar mais tarde no trabalho, seu chefe estava numa viagem de conferência. Então - já trocada de roupa - pegou sua bolsa com seus documentos, sua chave de casa e foi para a cafeteria da rua. Como estava sem pressa, então poderia tomar o delicioso café da manhã de lá à vontade.
Chegando lá, ela sentou-se na mesma mesa de sempre e foi atendida pelo garçom de sempre, um rapaz mais jovem que ela, cabelos cor de areia e olhos azuis como o céu. Apesar de estar sempre lá, quem o visse pela primeira vez acharia que ele era novato, talvez por não cair na rotina, sempre sorrir para os clientes e dar "Bom dia", ao contrário dos outros garçons, que somente perguntavam o que os clientes queriam, anotavam em seus blocos de papel e não diziam nenhuma sugestão amigável.

- Bom dia, Sra. Dale - disse ele à ela.

- Bom dia, Chris - respondeu ela, checando o nome do rapaz em seu crachá. Mesmo sempre indo lá e sempre sendo atendida por ele, todas as vezes esquecia seu nome, acho que sua mente estava cheia de nomes e negócios.

- O que vai querer hoje?

- Hum... - ela lia o cardápio rapidamente, não tinha tempo para tantos nomes de comidas - Um café expresso e quatro rosquinhas de canela, por favor. Ah, ponha muito açúcar, ou mel, ou qualquer coisa doce que tiver, preciso urgentemente de uma dose extra de açúcar na minha vida.

- Algum problema, senhora?

- Ah, nada, é só que... a felicidade está meio em falta para mim.

- A senhora não me parece triste.

- Não estou triste. Eu só não tenho aquela euforia nem aquela vontade de sorrir que todo mundo tem.

- Mas o contrário de feliz, é triste.

- Eu sei, mas... esqueça. Não quero te incomodar com os meus problemas.

Ela não queria transformar aquele café da manhã numa terapia, mas ainda sentia vontade de conversar com alguém, e o garçom parecia muito compreensível. Ele era jovem, talvez até um adolescente, mas seus traços de felicidade estavam evidentes na cafeteria, enquanto todas aquelas pessoas monótonas liam seus jornais com o mau humor exalando nos nervos e se preparavam para mais um dia de trabalho, o jovem trabalhava como garçom e aparentemente acordara mais cedo que todos e mesmo assim ainda sorria.

Passou-se uns minutos e o garçom trouxe seu café da manhã. Enquanto arrumava a xícara de café e a tigela de rosquinhas sobre a mesa, continuava com aquele traço de felicidade estampado em seu rosto.

- Qual o segredo? - perguntou ela ao garçom.

Ele fez uma cara de desentendido, sua expressão queria dizer pergunta.

- Ah, me desculpa - disse ela - Acho que fiz uma pergunta meio desconfortável. Eu iria perguntar qual o segredo para você ter uma vida tão aparentemente feliz. Você é jovem e acorda cedo para um trabalho não tão bom.

- É o que a maioria das pessoas pensa. - disse ele - Mas todo mundo tem objetivos, todos vivem, e viver não é simplesmente existir. Eu não quero ser só mais uma pessoa no mundo, quero ter algo em que me ocupar, quero viver lutando, trabalhando. Se você não é feliz, você não vive, você só existe.

Isso a fez refletir, então ela não vivia, ela simplesmente existia. "Porque a vida é dura", ela sempre dizia, depois de muitos empregos recusados e de um divórcio, ela deixara de viver.

- Eu só queria alcançar a felicidade - disse ela - Queria, sabe... ganhar na loteria, ou algo assim, e poder fazer o que eu quisesse, assim eu saberia que lá na frente eu seria feliz.

- Mas a felicidade não está só lá na frente - disse o garçom - Ela não está em um lugar certo. Não está nem no começo, nem no meio, nem no fim. A felicidade não habita somente o futuro, ela habita cada momento de sua vida. Se você está triste hoje, isso não significa que essa tristeza é permanente, mas se você está muito feliz, tem que ter cuidado para não deixar essa felicidade escapar. E esse é o problema com as pessoas: quando elas estão no limite da felicidade, elas querem mais, porque acham que nada é bom o suficiente para satisfazê-las. E eu só digo uma coisa, se você continua fazendo o que faz, mesmo reclamando, e consegue viver, é porque você sabe que está contente com a vida. Se a senhora simplesmente existisse não estaria aqui, tomando café, nem muito menos sairia para trabalhar, a senhora continua trabalhando porque sabe que mesmo querendo mais, o seu interior já está contente.

E dizendo isso, ele deu um leve sorriso e entrou na cozinha. Ela continuou lá, imóvel e mal conseguia comer seu café da manhã. Pelo visto, aquela agradável conversa com o jovem garoto tinha surtido mais efeito que as três semanas anteriores de terapia. Naquela manhã, ela saiu da cafeteria em direção ao trabalho de um jeito diferente. Se lembrou que não era mais uma pessoa em sua existência, era uma pessoa na sua vida. O mais importante: era o eu que controlava sua vida. Ela até parou numa floricultura e comprou flores para enfeitar a mesa do seu escritório. Tinha que aprender mais a viver, não se importaria com o futuro, que deixasse o tempo a levar, continuaria lutando e se esforçando, era isso que a trazia forças.

As pessoas idealizam a felicidade de uma maneira muito utópica, muito impossível. Todos estão na constante busca pela felicidade, quando não veem que ela está ali, na sua frente e pronta para ser usada. Todos acham que ela só virá no futuro, quando eles já tiverem muito dinheiro e realização profissional, mas se de algum modo você acorda todas as manhãs e tem a chance de lutar pelos seus sonhos, você já tem a felicidade. Não deixe escapá-la procurando algo inexistente.

9 comentários:

Annie disse...

Oioi, gostei desse texto, seguindo, bjbj obs: achei seu blog super lindo!! http://quaseprincesas.blogspot.com

Adália Sá disse...

Adorei seu conto. É exatamente o que eu penso sobre a felicidade. Não sei porque tem tanta gente que diz estar em busca da felicidade, quando ela é tão simples de se ter. Eu sou feliz, eu vivo, eu amo e sou amada e isso já é o suficiente.
Kissus
cherry-liah.blogspot.com

Mia Sodré disse...

Sempre procuramos por coisas inexistentes, não é? Quando as coisas podem estar bem à nossa frente, a nossa felicidade. Basta reconhecer os sinais. Ser mais atento. E não tão bobo.
Amei esse conto, guria. *-*

Beijos!

Antonia Chevallier Sundrani disse...

Amei o texto!! Infelizmente quase sempre a gente não enxerga o que está bem na nossa cara e buscamos algo inexistente...
Beijinhos

Ann
http://www.vinteepoucos.com.br

Stella Valim disse...

Muuuuuuuuuuuuuito verdade! A felicidade esta na ponta do nosso nariz e nós ficamos feito babacas procurando ela em todos os cantos e achamos que ela esta no futuro, mas não, esta ali, na nossa frente, pronta para ser usada, como você disse. Bela reflexão!
http://www.senhoritaliberdade.com/

Karen Almiron disse...

#BEMVERDADE!
procuramos um rumo,ou seja a verdade pra vida da gente,mais,sempre ela ta na nossa testa!
karenselajaalmiron . blogspot . com . br /

Mari Mari disse...

Bem escrito, leve, e abordando um tema cotidiano sem soar nem um pouco clichê. Adorei.
As vezes eu queria escrever algo mais assim, mas meus temas são sempre tão pesados... Rs

Obs: juro que pensei que ela fosse pegar o garçom haha

Tha'li disse...

Ótimo texto!

Gabriela Freitas disse...

Conto excelente. A felicidade pode estar em qualquer coisa, momento ou pessoa que passe por nós, cabe a cada um reconhecer e aproveitar esses momentos, que não são pra sempre, mas podem ser eternos, se é que me entende.

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